09/06/2019

TBM-07 Allan Praskin Quartet - "encounter" (1971)


Título: "encounter"
Data: 1971
Artista / Grupo: Allan Praskin Quartet
Nº do Catálogo: TBM-7, TBM-2507 (Reedição 1977)

Line-up:
Allan Praskin - Saxofone Alto
Kiyoshi Sugimoto - Guitarra
Yoshio Ikeda - Contrabaixo
Motohiko Hino - Bateria

Faixas:
01 - Softly, As In A Morning Sunrise (11:37)
02 - The Height Of Spring (10:40)
03 - Encounter (06:57)
04 - Reflectors (06:21)
05 - Blues Connotation (08:21)


Mais um capítulo do livro gaijin jazz. Aproveitando a reunião de músicos de "Q" (TBM-06), o sétimo álbum dos três ratinhos juntou, na mesma sessão, os sopros americanos da vanguarda com o talento nipónico acabadinho de sair da escolinha. Allan Praskin aterrava no país do sol nascente, qual missionário jesuíta moderno, oferecendo workshops, não de cristandade, mas de música negra aos nativos. E, atentamente, eles escutavam como esponjas absorventes. Dois dos japoneses do quarteto tinham gravado as suas primeiras coisas apenas um ano antes: Kiyoshi Sugimoto e Motohiko Hino (também já associados no álbum do baterista, Beat Drum) estreavam-se com dois fortes álbums enquanto band leaders, Country Dream e First Album respectivamente. Yoshio Ikeda, menos notório, mas mais prolífico, associava-se tanto às popalhadas açucaradas de Sadao Watanabe, como ao jazz espiritual de Terumasa Hino e ainda às composições acidentais de Masahiko Togashi. Guitarra, bateria e contrabaixo entravam no estúdio para tirar notas. Sempre atrás de um saxofone a cavalgar, tentando ensinar aos novatos a melhor forma de dar um nó de marinheiro no meio de uma tempestade em alto mar. Algures em Tóquio, brincava-se ao jazz.

Com Softly, As In A Morning Sunrise, Praskin evangeliza logo os músicos na arte da interpretação (ou melhor, interpenetração), já que aqui se desconstrói um standard. Praskin começa, solando à lonesome cowboy, sendo depois auxiliado por um saltitante contrabaixo e, finalmente, pela bateria chincalhona. O silêncio do sopro dá lugar a um solo portentoso de Sugimoto. Só os japoneses tocam agora. Querem impressionar o estrangeiro, mostrar do que são capazes, que o jazz é arte recente no Japão, porém viva e borbulhante. Praskin volta a carga, depois de receber o testemunho de Sugimoto. Hora de puxar pelos galões, isto é, ir mais além na escala, rasgando discretamente o ar, preferindo rotundas a auto-estradas musicais. A secção rítmica chocalha em esforço, mas são as dedilhadas de Sugimoto que vão conferindo a segurança melódica que a velocidade de Praskin progressivamente necessita. Uma forma de entrosamento melódico baseado na dissonância do saxofone e nas notas de confirmação da guitarra. Lá para o final, Praskin volta ao tema, como que carnavalizando-o. É nessa intensidade circular que se nota o primeiro pico desta banda improvisada, mas já tão firme.

Swing a esta hora? The Height of Spring inicia-se com um pequeno pregão melódico, uma espécie de som provocatório típico de crianças fazendo chacota de alguém (será dos músicos?). No entanto, toda a banda está suficientemente aquecida para iniciar a viagem super-sónica antecipada por este sopro traquina. É sempre Praskin que vai à dianteira, expulsando notas; logo atrás Sugimoto com a guitarra embalada pela subida e descida de escalas; Hino e Ikeda, não querendo ficar para trás, pactuam na intensidade (note-se o vigor de Hino). Eis que Praskin regressa ao tema duas vezes unicamente para deixar os alunos brilharem. É aqui que a faixa encontra a sua melhor secção, estranhamente sem precisar do saxofone do líder. Mil vénias para esta guitarra cacofónica à beira de um abismo estridente que ecoa e se repete, sem medos de trazer todas as influências rockeiras para o meio da banda. De seguida, Ikeda, finalmente. Bravo para o trio japonês: um contrabaixo que rememora Stanley Clarke nos seus melhores dias com uma sonoridade pesada, gorda e grossa, incrível para os ouvidos e para um pé que não cessa de bater; uma guitarra-bateria-almofada que participa na exacta medida da sua necessidade, lá longe, discreta, slowly but surely. No canto, imagina-se Praskin a ganhar fôlego para o que vem a seguir: o tema traquina, outra vez, mas agora despontando num foguetão furando nuvens e atmosferas. Há fumo no estúdio! E o fogo? Só nos pulmões abrasadores de Praskin e nos trinta dedos do trio. Juntos em uníssono recriam a experiência auditiva de um vórtice. A intensidade é tanta que, quando o silêncio enfim regressa, consegue-se ouvir um bater de palmas, como se tal desfecho fosse uma surpresa para todos os intervenientes. Ponto alto do álbum, sem dúvida.

Encounter, que dá nome ao álbum, e Reflectors partilham do mesmo estilo, mas não da mesma intensidade. São faixas quase exclusivas de Praskin em que o resto da banda actua, infelizmente, como "elo mais fraco". A primeira acaba por ser semelhante às secções mais frenéticas das faixas anteriores com a banda aos círculos, fumegando e sem paragens para respirar. Há um pequeno solo de Sugimoto notável já no final que nos relembra da importância destas passagens mais livres e individuais onde os silêncios são mais respeitados. Reflectors é Praskin em puro modo swing. Vale a pena ouvir pelo modo como o som deste alto se enrola e harmoniza na crista da onda.

Nada melhor para finalizar do que um blues. Irrequieto, Praskin devolve-nos a melancolia da alegria nas primeiras notas de Blues Connotation. Mas é Sugimoto, outra vez, que nos surpreende, justamente na sua dimensão conotativa. Uma suavidade situada lá atrás que não quer servir exclusivamente de complemento para os excessos do alto e da bateria. Várias vezes damos com o nosso ouvido a tentar encontrar aquele apontamento genial de uma guitarra que ora redobra a ansiedade, ora manda calar a euforia dos colegas de métier. Agindo simultaneamente como superlativo da banda e como sua contradição, acabamos por perceber o papel fundamental destas cordas, ainda com pouca experiência, mas já tão promissoras. É caso para dizer que a montanha pariu um rato, mas o rato era tão magnânimo como a montanha.

Classificação: ***
Melhor Solista: Kiyoshi Sugimoto
Melhor Faixa do Álbum: The Height of Spring

16/05/2019

TBM-06 Hideto Kanai Group - "Q" (1971)


Título: "Q"
Data: 1971
Artista / Grupo: Hideto Kanai Group
Nº do Catálogo: TBM-6, TBM-2506 (Reedição 1977), PAP-20032 (Reedição 1982)

Line-up:
Hideto Kanai - Contrabaixo
Tadayuki Harada - Saxofone Barítono (01)
Masamichi Suzuki - Trompete (01)
Allan Praskin - Saxofone Alto (01,02)
Kosuke Mine - Saxofone Alto (01,02)
Motohiko Hino - Bateria (01,02)
Choyo Kanda - Xilofone (02)
Hiroshi Yamazaki - Bateria (03,04)
Hiroshi Koizumi - Flauta (04)
Masayuki Takayanagi - Guitarra (04)

Faixas:
01 - April Song For Kanai, Zui-Zui-Zui-Du-Tubadaba (13:50)
02 - Q (10:03)
03 - Kaleidoscope (05:59)
04 - Meditation (12:12)


Da última vez que vos deixámos, tínhamos visto como a borbulhante cena estrangeira da free form deixava o seu lastro na mente influenciável dos jovens intérpretes japoneses. O próximo álbum da companhia dos ratinhos seria a prova provada como as energias desconstrutivas de Ornette Coleman não tardariam a chegar ao país do sol nascente, desta feita transfiguradas e reinterpretadas, mais ao sabor de um shakuhachi a saudar uma onda gigante do que notas de uma agressividade embaciada num clube apertado da Midtown Manhattan. Esta sessão reuniu um conjunto de músicos em torno de Hideto Kanai, contrabaixista ligado à avant-garde uma década antese acaba por funcionar como um pot-pourri de estilos e variações dentro de uma musicalidade mais atonal. Os intérpretes vão mudando de faixa em faixa, passando o testemunho uns aos outros. O grande maestro é Kanai, que lidera tudo com grande lucidez. Ouçamos.

Em April Song For Kanai, Zui-Zui-Zui-Du-Tubadaba (se o leitor não sorri com este título, então duvidamos do seu sentido de humor), o som acornetado da secção de sopro rememora uma batalha sonora que podemos não estar preparados para entrar. É o trompete de Masamichi Suzuki que nos avisa do que vai acontecer. Kanai, após o estrilho da bateria de Motohiko Hino, dá-lhe no contrabaixo, inclusive serrando as cordas para adicionar gravidade a uma tal inquieto início. A surpresa vem a seguir quando os instrumentos de ar nos empurram para um turbilhão sonoro. Já encalhámos os ouvidos neles, tontos, embriagados. A bateria marca o ritmo depois, o contrabaixo swingué contradiz a ansiosa atonalidade anterior. Eis que o alto de Allan Praskin (o intruso gaijin que vem lembrar aos japoneses que Eric Dolphy não morreu) põe em causa todas as dúvidas. A sua maneira de enrolar as notas não nos deixa quietos. Se esta maneira de encarar as notas fosse um animal seria um réptil, rastejando e enrolando na terra, só sabendo se é veneno depois da mordida. Eis que o nosso já conhecido Kosuke Mine lhe sucede no solo, também de alto. A sua clareza é a de uma ave. Voando e migrando sonoramente nos céus, com um toque de brincadeira verdadeiramente admirável. Este segundo solo ganha ao anterior, na nossa humilde audição. Mine e Praskin dialogam já na secção final. Um falcão e uma serpente partilhando o palco. É preciso ouvir os entrosamentos com cuidado. A despeito da violência sonora que acontece com o regresso de todos os outros instrumentos (e do trompete marcial e "sem brincadeiras" de Suzuki), há aqui uma harmonia esplendorosa, uma beleza controlada no caos.

Sai o trompete e quedam-se todos os outros instrumentos na segunda faixa. Q, que dá nome ao álbum (não por acaso, diríamos, porque se trata da melhor porta de entrada para o que aqui se está a fazer), começa nervoso com a introdução do xilofone inquietante de Choyo Kanda, o peso stressante das cordas de Kanai e os saxofones que se agigantam à nossa frente como uma má premonição. O ritmo dos pratos de Hino declinam para a confusão de saxofones em rodopios místicos, quais sufis dourados. Solo voador de Mine que não teme as notas mais altas, em consonância com uma bateria periclitante. Sucede-lhe Praskin - já mencionámos Dolphy, certo? - num longo solo. Ocasião para Kanai tornar as notas em tempestade marinha enquanto que o americano cria uma onda maior, composta por todas as pequenas ondas enroladas. Às tantas, entramos no domínio do super-sónico. A banda aquece e, veloz, precipita-se para o choque como um comboio de alta velocidade sem travões. Nesses momentos em que todos os instrumentos tocam para o seu canto, quase ignorando os outros numa espécie de apogeu do egoísmo, alcança-se uma expressividade notória, cúmulo da atonalidade. A dissonância de Kanai, no final, faz-se acompanhar pelos dois saxofones, lamentando, tristes, quase culpados por despenderem tanta energia vital, tanta intensidade sem limites.

Depois da tempestade vem a bonança? Talvez. Em Kaleidoscope, é como se todo o palco mergulhasse no escuro e só uma pequena faixa de luz iluminasse o nosso contrabaixista. Sozinho com as suas cordas, Kanai sola, auxiliado pelos apontamentos muito pontuais da bateria de Hiroshi Yamazaki (que substitui Motohiko Hino de ora em diante). Nesta faixa, relembramos certamente a conhecida acepção que o segredo da música reside na alternância entre som e silêncio. Poderíamos mesmo dizer que Kanai faz um dueto com o silêncio, calm and collected, atento aos intervalos e aos jogos da expectativa. A percussão de Yamazaki toma a dianteira lá para o meio, tudo se assemelha a uma festa primitiva, sons que nos transportam para África e não para o Japão. Mas Kanai é universal e sincretista. O seu instrumento brinca com as escalas por cima da marca geográfica do baterista, parte para outras sonoridades e continentes. Um contrabaixo sem passaporte ou nacionalidade.

A faixa mais japonesa do álbum, Meditation, vira do avesso a flauta transversal. Hiroshi Koizumi é mais monge budista, contemplando com o seu som um jardim de areia e pedra, do que um jazzman convicto do seu swing. É uma faixa que, como o seu nome indica, nos transporta para dentro de nós numa noite de lua cheia em que apetece escrever um haiku. A flauta torna-se, por vezes em shakuhachi, noutras num instrumento digno de Stravinski ou outro compositor erudito contemporâneo. Quando ela finda, chegam influências da música concreta e vários sons se unem numa percurssão colectiva que não nos largará até ao fim. Masayuki Takayanagi, conhecido bad boy da atonalidade, dedilha uma guitarra cada vez mais inopurtuna, juntando-se à festa desorganizada. Mas é o regresso de Koizumi que aguardamos com expectativa. É o som desta flauta hipnotizante que clarifica a confusão mundana dos objectos sonantes. É esse som inquietante que nos guia e nos ilumina, como um súbito satori, um sinal de transcendência no meio da violência do mundo dos fenómenos. É preciso abstrair-nos do ruído e tentar encontrar a beleza sublime. Através do sopro, portanto. A secção final de Meditation, em que nos deparamos só com Kanai e Koizumi, é já pura oração. Namu amida butsu também para vós, caros budistas do jazz.

Classificação: ****
Melhor Solista: Hideto Kanai
Melhor Faixa do Álbum: Q

28/02/2019

TBM-05 Albert Mangelsdorff Quartet - Diggin' - Live At Dug, Tokyo (1971)


Título: Diggin' - Live At Dug, Tokyo
Data: 1971
Artista / Grupo: Albert Mangelsdorff Quartet
Nº do Catálogo: TBM-5, TBM-2505 (Reedição 1977)

Line-up:
Albert Mangelsdorff - Trombone
Heinz Sauer - Saxofone Tenor
Günter Lenz - Contrabaixo
Ralf Hübner - Bateria

Faixas:
01 - Spring & Swing (14:45)
02 - Open Space (10:34)
03 - Mahüsale (21:40)
04 - Triple Trip (04:05)


Quando o quarteto liderado pelo alemão Albert Mangelsdorff aterrou em Tóquio para um concerto no clube Dug, Takeshi "Tee" Fujii e os seus ratinhos ambulantes correram com os gravadores e os microfones de modo a parirem o quinto álbum da sua ainda prematura label. Na verdade, este hiato do borbulhante jazz japonês em virtude do entusiasmo pela disseminação do gaijin jazz seria deveras esporádico - acontecendo também, a título de exemplo, com Allan Praskin em "encounter" (TBM-07) -  sessão com uma natureza diferente da de Mangelsdorff, pensada muito mais como um cruzamento entre músicos japoneses e ocidentais do que mero registo passivo de vanguardas estrangeiras. Primeiro álbum gravado ao vivo pela produtora, Diggin' - Live at Dug, Tokyo funciona justamente como um banho de imersão naquilo que se poderia ouvir na capital japonesa na altura; sons perto da espontaneidade, intensos e de formas livres, sedutores para muitos intérpretes japoneses que começavam a dar os primeiros passos em direcção ao desmantelamento da tonalidade (Yosuke Yamashita, Masayuki Takayanagi, Kaoru Abe, etc.). É preciso sublinhar que as ramificações destas influências demonstram o quão rico em oferta musical o Japão era. Um país em que a tradição e a vanguarda do jazz se descobriam ao mesmo tempo.

Spring and Swing e Open Space abrem as hostes da libertinagem tonal. São claros exemplos de faixas endiabradas sob o signo da supremacia da improvisação sobre a composição. Em ambas (como em todo o álbum) destaca-se o saxofone rasgado de Heinz Sauer, às vezes reminiscente de um Albert Ayler dispensado de lirismos maiores. Noutras, mais raras, julgamos estar diante de um intérprete embriagado de swing. O último registo liberta-se do colete de forças da free form e dá lugar a momentos bem mais inspirados como acontece no final de Spring and Swing, desta feita a melhor faixa de toda esta empreitada. Os overblows em Open Space e a divagação constante da secção rítmica (nem as dedadas no contrabaixo de Günter Lenz nos são suficientes para extrair daqui grandes revelações) abre porventura demais o escopo improvisacional deste quarteto e aquilo que deveria ser inventividade rapidamente deixa antever alguns padrões mais inusitados.

Mahüsale, faixa que, devido à sua duração, poderia encher um lado de um LP, pode apaixonar os mais fervorosos admiradores desta faceta mais crua do jazz, enquanto que a este escriba só ligeiramente dedilhou o seu ouvido um pouco ansioso por mais impressão e menos expressão. O início é, sem dúvida, poderoso. O trombone de Mangelsdorff, qual OM budista, vibra no ar e convida o resto da banda a participar em tão misterioso e prolongado acorde. O saxofone-passarinho-chaminé de Sauer inquieta e faz o contrabaixo de Lenz raspar as cordas numa gravidade que nos faz querer saber onde vamos estar a seguir. Felizmente, o saxofone não tarda a regressar às notas de cabaret e sola, como que perdido num mar rítmico de "cada homem navega por si". Infelizmente, depois disso voltamos aos overblows e aos choques de uma bateria e secção rítmica mais agressivas. Esta última metade deixa cair a transformação musical mais abstracta em virtude de um clímax já pouco desejado. Mesmo nos momentos mais agressivos e intensos de improvisação, saúde-se porém a capacidade metamórfica do saxofone. Mas julgo já ter tecido os maiores elogios a Sauer.  

Triple Trip, como o nome indica, é uma viagem a três vozes. Sim, trata-se de um quarteto, no entanto, um dos instrumentos parece sempre alinhar-se a outro, estabelecendo quase sempre uma equação de semelhanças e diferenças tonais. Uma espécie de fórmula 1+1+(1+1) em que dentro do parêntesis se mudam os intérpretes consoante mais longe seguimos na viagem. Esta é, talvez, a faixa mais cerebral de um álbum por si já cerebral. Resta-nos fechar as portas do clube e imaginar o efeito destes avanços (e recuos) musicais nas mentes dos intérpretes japoneses, sedentos de novas liberdades e libertinagens. A resposta não tardaria a chegar logo no álbum a seguir, em TBM-06.


Classificação: ***
Melhor Solista: Heinz Sauer
Melhor Faixa do Álbum: Spring & Swing

04/07/2018

TBM-04 Mine, Kosuke Quintet - 2nd Album (1970)


Título: 2nd Album
Data: 1970
Artista / Grupo: Mine, Kosuke Quintet
Nº do Catálogo: TBM-4, TBM-2504 (Reedição 1977)

Line-up:
Kosuke Mine - Saxofone Alto e Soprano
Yoshio Suzuki - Contrabaixo
Hiroshi Murakami - Bateria
Yoshiaki Masuo - Guitarra
Takashi Imai - Trombone

Faixas:
01 - Y.M. (11:42)
02 - Brother in Law (11:48)
03 - Striped Slack (13:51)
04 - Chin San Take 1 (04:28)
05 - Chin San Take 2 (03:57)


O segundo álbum de Kosuke Mine gravado na toca dos ratinhos - após o muito sólido "Mine" (TBM-01) - é uma competição entre membros da banda para ver quem desaba primeiro com as paredes do estúdio, através de tsunamis sonoros. A adição da guitarra do aqui ainda muito jazzístico Yoshiaki Masuo (virar-se-ia para ritmos mais pop nas décadas seguintes) cria uma espécie de parafernália sónica, uma robustez destrocada de cordas, possibilitando parcerias perigosas com o contrabaixo subindo escadas de Yoshio Suzuki. Y.M., a primeira faixa, é marota como tudo. Nem de aquecimentos esta banda precisa. O soprano de Mine grita com uma incisão de pregador e começa a swingar como um sátiro atrás de ninfas. O baixo percorre as escalas para acompanhar o hipnotismo do sopro, já a guitarra, lá ao longe, vai dando conselhos na forma de acordes tímidos. O saxofone, descontrolado na ânsia de queimar páginas de pautas musicais prossegue quase isolado na sua busca. Eis que a finura do instrumento se transfigura numa sirene estridente. Êxtase puro, intensidade almofadada depois pelo trombone cheio de ar de Takashi Imai. A guitarra agora perde a timidez e dialoga livremente com o outro instrumento. E depois descola dele, decide solar. Mas, afinal, sempre há um Wes Montgomery japonês? Sem exageros, as linhas de Masuo são claras, rápidas, nunca perdidas numa petição qualquer de complexidade lírica. Cada tiro é um golo. Que extraordinária e lúcida prestação, esta! E, como um avião que aterra na pista, a guitarra bandolineira deixa a bateria de Murakami expressar-se e regressar a uma versão despachada e sintetizada do tema. Com os cabelos em pé e sem fôlego, passamos para a próxima com um sorriso estampado no rosto.

Brother in Law pertence a uma categoria de composições que pessoalmente gosto de chamar: "eu bem te avisei..." Com um estalar dos nossos dedos, há qualquer coisa aqui de uma confirmação de um lamento, qualquer coisa saída de uma comédia de enganos, um encolher de ombros perante as tragédias da vida com um certo sarcasmo à mistura. "Eu bem te avisei..." - é isso que ecoa o alto de Mine no meio de uma banda completamente à sua mercê, junta para entregar a melodia delico-doce. No entanto, atente-se bem às guitarradas de Masuo, sempre pertinentes, sempre no fundo, no sítio e no segundo certo. Que distribuição de mimos! O solo do saxofone põe o pé em território blues - e de que maneira. Chora por nós, Sr. Mine, mas não te esqueças de nos enxugar os olhos depois. Imai a seguir tenta chegar aos calcanhares de Mine, mas acabo por me concentrar mais nos estrondos da bateria de Murakami, verdadeiros sound-effects para um gag físico e melancólico. São agora as cordas da guitarra que nos embalam numa banda que se torna trio por uns minutos. A suavidade toma conta da faixa e é impossível não balançar o corpo, bater com o pé no chão, estalar os dedos e beber outro copo de gin tónico ou outra bebida alcoólica semelhante. Reduzindo ainda mais os instrumentos, o contrabaixo dialogando com a bateria num duo de fazer "yeah" a cada momento. E Mine volta a avisar-nos. Depois, Imai atrás dele. Logo a seguir, a banda que voltou a ser um quintento. Fechem a loja, rapazes. It's a wrap! 

A bateria e o contrabaixo a colocar tudo em pratos limpos em Striped Slack... Cada vibração de corda e cada prato batido, um presságio. Entram os sopros para confirmar. Imai tenta aguentar o início muito promissor. A bateria, frenética, não brinca em serviço. Masuo, auxiliando o amigo trombonista, vai seguindo os acordes e cede algumas ideias para ambos continuarem a conversa. Ambos calam-se para deixar Mine endiabrar os sentidos (como sempre tem feito desde a primeira faixa). Neste solo, temos direito a muitas coisas: provocações infantis (um "nha, nha, nha" em saxofone), subidas de escala para o infinito e mais além, descarrilamentos lógicos, uma tentativa de virar o instrumento ao contrário num carnaval infernal em que toda a gente é obrigada a dançar. A guitarra de Masuo, por momentos, estremece e vibra violentamente, acompanhando o incêndio auditivo do band-leader. O seu solo a seguir avant-gardizasse e de Wes Montgomery passamos a Sonny Sharrock numa questão de meros segundos. Duas formas radicalmente distintas de encarar o instrumento, duas técnicas completamente diferentes invadindo os nossos ouvidos atentos. Não podemos deixar despercebida esta versatilidade, que bem pode ser mais uma dupla-identidade, do guitarrista. É ele o melhor solista do álbum. 

Nos dois takes de Chin San somos convidados a participar numa calmaria inquietante, na senda do Tears for Dolphy de Ted Curson. É uma composição curta, mas a mais introspectiva de todo o álbum. Pessoalmente, é o primeiro take que mais me enche as medidas, isto porque ele contém um solo astral de Masuo que estranhamente foi silenciado no segundo, esse muito mais orientado para os instrumentos de sopro (e com um solo melhor de Mine). Mesmo assim, Masuo leva a introspecção ao paroxismo com as suas vibrações espirituais, os seus acordes quase tirados de uma balada de rock progressivo. Será esta outra das suas facetas? Quantas mãos diferentes pode ter um guitarrista? Excelente fecho para 2nd Album, um álbum que em nada fica atrás do primeiro.


Classificação: ****
Melhor Solista: Yoshiaki Masuo
Melhor Faixa do Álbum: Brother in Law

20/05/2018

TBM-03 Takao Uematsu Quartet/Quintet - debut (1970)


Título: debut
Data: 1970
Artista / Grupo: Takao Uematsu Quartet/Quintet
Nº do Catálogo: TBM-3, TBM-2503 (Reedição 1977)

Line-up:
Takao Uematsu - Saxofone Tenor
Sadayasu Fujii - Piano Eléctrico (Fender)
Yoshio Suzuki - Contrabaixo
George Otsuka - Bateria
Takashi Imai - Trombone

Faixas:
01 - Inside Parts (11:14)
02 - Stella By Starlight (09:37)
03 - T.I. (08:51)
04 - Sleep, My Love (07:49)


O álbum de estreia de Takao Uematsu viu nascer outro incrível e importante intérprete, a despeito de ter gravado tão pouco como band-leader. Takashi "Tee" Fujii reuniu aqui, por vezes um quarteto (faixa 1 e 2), por outras um quintento (faixa 3 e 4) que ombreia, sem dúvida, com a banda reunida em "Mine" (Takashi Imai, o trombonista que transforma o quarteto em quintento, é repescado desse álbum anterior). Ambos os grupos estão interessados em explorar, quais escafandristas musicais, o terreno fértil da improvisação. Ambos deixam os sons eléctricos do Fender, a bateria dinâmica, e o contrabaixo saltitante alcatifar as partículas do ar para deixar brilhar o tenor de Uematsu (contrário aqui a Kosuke Mine que usara soprano e alto). Em Inside Parts, a sonoridade brincalhona de Uematsu deixa os seus colegas com o difícil cargo de ajudantes de cozinha, uns temperando o prato principal devidamente arranjado pelo chefe, outros indo buscar à horta ingredientes que enriquecem a iguaria. O primeiro ímpeto do saxofonista é quebrar-se em ondas sónicas. A bateria do mais veterno George Otsuka dá palmadinhas nas costas da coluna de som do tenor, enquanto o Fender de Sadayasu Fujii permanece meio embaraçado, soltando acordes soltos. O contrabaixo de Yoshio Suzuki, portanto, faz-se ouvir mais, descendo e subindo degraus, tentando acompanhar a malandrice de Uematsu que chega sensivelmente a meio da faixa soprando ventos e colhendo tempestades. Depois, o seu silêncio deixa a banda em suspenso. É hora do trio restante se soltar e impressionar o líder. Fujii no seu Fender melodioso toma agora a dianteira; Suzuki, com as cordas cheias e gordas, não lhe fica atrás. Ambos solam na sombra de Otsuka que bate nos pratos como quem estala os dedos de uma mão. Uematsu, percebendo que deixou a banda em bons lençóis, volta à carga. A prova da sua intensidade acontece quando as notas se multiplicam e chegam à fronteira física do seu instrumento, desfazendo a sua clareza num êxtase. 

Como que dando a impressão que pratica no seu quarto, os primeiros segundos do standard Stella By Starlight, são tocados por Uematsu em silêncio absoluto. Há solidão, tristeza, um desconsolo de leve sorriso na cara. O resto da banda não tarda, porém, em puxar-nos para a sensação das paredes do estúdio ou clube de jazz. São eles que nos puxam para a realidade do virtuosismo. A bateria, o contrabaixo, o piano. E a melancolia de Uematsu e deste tema (contraponha-se com as versões de Miles Davis ou Bill Evans, etc.) transmuta-se, de súbito, em pretexto para explorar as dinâmicas do seu instrumento e dos seus companheiros. Vamos sendo guiados pela audácia destes instrumentistas que não têm medo de retocar (nos dois sentidos da palavra) este tema. É verdade que aqui tudo é competente, tudo é veloz, mas não escondemos a vontade de termos permanecido nas águas mais chorosas, líricas, prometidas ao início. Algum desse sentimento ainda pode ser encontrado no último minuto, após o solo do contrabaixo, quando o tenor vai progressivamente silenciando a banda e outra vez se desfaz num pranto, apenas para ser confirmado por uma bateria tremida e um contrabaixo e piano que fecham as portas da melodia.

Mas, inquietação é a palavra-chave da terceira faixa. O Fender "eu-bem-te-avisei" de Fujii e o contrabaixo feérico de Suzuki (esta composição é sua) alicerçam as premissas de T.I.: choro colectivo e compulsivo da humanidade, lúcida evidência da angústia, melhor faixa de debut. Quando Uematsu e Imai (o trombonista, pela primeira vez aparecido no álbum) entram com o mesmo corpo sónico, eles não pretendem provar nada a ninguém, mas antes reafirmar que as notas podem intuir lágrimas. Se o resto da banda está presente a seguir ao tema tocado pelos dois sopradores da saudade, é no monólogo do saxofonista que vale a pena afunilarmos os nossos ouvidos. É como se uma meditação interior fosse expurgada, colocada no mundo, presenteada para espectadores alheios que não conseguem evitar o contágio. É um solo digno de registo, daqueles que nos fazem agarrar à cadeira, daqueles que nos fazem arrepiar a pele. Mas, se as carpideiras não carpem para sempre, também o Fender de Fujii, surgido após o silêncio de quem disse tudo de Uematsu, representa aquele momento em que já se chorou o que havia para chorar. Soluçamos, pois, com os olhos ainda húmidos, escutando a doçura do momento imediatamente posterior a uma descarga emocional. E o trio contra-ataca: Suzuki e Otsuka, discretos, vão acrescentado palavras aos fraseados carentes de Fujii. Voltamos, depois, ao tema, mais seguros e menos emocionais. Mais mecânicos, em regime enfraquecido de déjà-vu. Suzuki, sem medos de pecar por excesso, fecha a composição com chave de ouro, não tentando falsificar lirismos com o seu contrabaixo, optando por sons mais moderados e racionais. Por distribuir a intensidade de forma exímia e por procurar sempre equilibrá-la numa fina corda, T.I. é também a faixa mais madura do ponto de vista dos timings de cada intervenção dos músicos.

Sleep, My Love é mais soturno, mais balada dervixe, mas está completamente na senda da faixa anterior. Se as primeiras duas interpretações do quarteto demonstravam a perícia técnica e o arrojo formal dos músicos, as duas últimas do quinteto pintam um lado mais perto das emoções, mas emoções frágeis, nocturnas, chuvosas sem se permitirem arrogar trovoadas: Uematsu, sempre com a boca no sítio certo, com as suas notas overblown, intensas, viscerais, vindas da alma; Imai, com espaço para finalmente solar no meio da onda sónica de uma banda energética mesmo quando fala de coisas do coração; Fujii com o seu Fender sem hesitações, sempre com um olho na bateria e outro no contrabaixo. São os três solos que desaguam, outra vez, no tema introspectivo e suavemente inquisitivo de Uematsu. Um excelente terceiro disco vindo da toca dos Três Ratinhos.


Classificação: ****
Melhor Solista: Takao Uematsu
Melhor Faixa do Álbum: T.I.

16/05/2018

TBM-02(42) Masaru Imada Quartet - NOW!! (1970)


Título: NOW!!
Data: 1970
Artista / Grupo: Masaru Imada Quartet
Nº do Catálogo: TBM-2, TBM-42 (Reedição 1975), TBM-2502 (Reedição 1977)

Line-up:
Masaru Imada - Piano
Ichiro Mimori - Saxofone Tenor e Soprano
Takashi Mizuhashi - Contrabaixo
Masahiko Ozu - Bateria

Faixas:
01 - Nostalgia (10:15)
02 - Alter (08:48)
03 - Gehi Dorian (10:00)
04 - The Shadow of the Castle (09:53)


A reputação de Masaru Imada deve-se, em grande parte, à editora dos três ratinhos. Antes de lançar este NOW!! (a primeira edição de 1970 usava dois pontos de exclamação e por isso os mantemos, a despeito de um deles ter sido retirado em todas as reedições posteriores), o jovem pianista tinha, em duas ocasiões diferentes, dado uma perninha (ups, mãozinhas) ao baterista Takeshi Inomata e ao saxofonista Hiroshi "Sleepy" Matsumoto - o último também viria a gravar para o João Ratão, Takeshi "Tee" Fujii, uns anos mais tarde. A presença assídua no catálogo TBM a partir daí fez de Imada o segundo artista mais gravado da companhia, ficando atrás apenas de Tsuyoshi Yamamoto, outro pianista. Como perceber a razão deste sucesso? Competência técnica, claro, audácia criativa, evidentemente, mas também um excelente primeiro disco. E que disco! Nostalgia, com o tímido tilintar de sinos, sets the mood para o que virá depois. O arrastado saxofone lírico de Ichiro Mimori chora rios por nós e o piano de Imada, descontente com a sobriedade que ainda podia ter resistido, carrega ainda mais o dedo na ferida com notas finas que nos relembram o melhor de McCoy Tyner. É como se tivéssemos entrado com pés de lã num clube apertado e escuro de jazz, com a neblina do tabaco a fazer humedecer os olhos do mais virginal portador de traqueia. De súbito, mexendo no copo de álcool musicado com gelo, um sentimento de tristeza colectiva vem ao nosso regaço, como só acontece com os acordes equilibrados de um quarteto de jazz. Falei em choro, e não é que o contrabaixo de Takashi Mizuhashi (com muito mais abertas para se fazer ouvir, ao contrário do que acontecia no jazz sónico de Kosuke Mine em "Mine") fala a lamuriar-se? Uma tecitura rugosa, queixosa, porém firme, como um velho inconsolável que não come as sílabas ao expressar as suas dores. O solo de Mizuhashi lá para o fim faz-nos querer abraçar o ar que permitiu a propagação do som das cordas vibrantes e expressivas. Imada resgata a melancolia debaixo da terra e segura-a, num bálsamo, com o seu piano-riacho. O tenor de Mimori diz-nos um último adeus com a banda ao fundo a aprontar despedidas. Presos à cadeira do clube de jazz, já não queremos sair sem antes nos intoxicarmos com qualquer coisa.

Todos os instrumentos viram percussão em Alter, faixa consideravelmente mais experimental. Serão estes os efeitos secundários do narcótico que pedimos ao terminar Nostalgia? Os pratos da bateria chocalheira de Masahiko Ozu procuram a amizade conflituosa dos dedões de Mizuhashi nas cordas grossas do seu contrabaixo. Acresce a isto a temeridade de Imada que mergulha para dentro do seu querido instrumento e começa a produzir sons inquietantes ao puxar os intestinos do seu piano para fora com toda a gente a ouvir. Sim, esta é uma faixa de prestações individuais e intensidade física (se fosse um filme de terror seria gore), bastante mais ilustrativa do hemisfério esquerdo do cérebro do que do direito. "Quietos! Isto é um assalto". Não sou eu que o digo, mas o saxofone soprano de Mimori que chuta o experimentalismo cerebral dos seus colegas para canto e começa a encantar serpentes, como um sábio místico. E as serpentes somos nós? Com certeza. Existe algo de arábico neste abrasador sopro atonal. Ou será oriental? De certeza que não vem do mesmo sítio de Mozart. Voltando às teclas do seu piano-cadáver, o necrófago Imada transforma cada martelada numa tempestade enquanto o soprano hipnótico continua a sua jornada. Depois, só as intervaladas vibrações do contrabaixo nos podem acordar do pesadelo, como aqueles sons de alarme que se imiscuem nos sonhos para nos puxar para o real.

Gehi Dorian confirma a inspiração e as lições mccoyianas que já tínhamos pressentido anteriormente. Um piano completamente fluído que vai de uma ponta à outra numa questão de segundos; escalas que são alternadas com uma facilidade irrepreensível, como se fosse um jogo. Esta é a faixa modal do álbum. Claro que um teórico poderia referir a predominância das escalas pentatónicas e divagar sobre os detalhes técnicos que tornam aqui tudo tão especial, mas eu não tenciono aborrecer-vos, ainda para mais quando se trata da faixa mais lixada (com "f" e no bom sentido) de todo o álbum. É preciso, no entanto, fazer uma pequena referência ao tenor de Mimori, qual Joe Henderson saído de Shinjuku. Se Imada prevalece no tema (e extraordinariamente, diga-se), é no soul arrepiante de Mimori que vamos buscar toda a energia para abanar a cabeça e bater com o pé no chão. Infectante, sem sombra de dúvida.

O último vértice do quadrado Lamento-Experimentação-Virtuosismo é Balada. E The Shadow of the Castle é essencialmente isso, apesar de continuarmos a pisar território modal. Se há faixa que melhor isola o talento de Imai simultaneamente como intérprete e compositor, esta levava o prémio para casa. O piano só se silencia em curtas improvisações da banda (uma pequena para cada instrumento do quarteto) e, de resto, há uma longa sequência em que ele dialoga com o contrabaixo e bateria, solando como num saloon para a frentex. Note-se também a maneira como os primeiros segundos da composição se vão desabrochando em algo bastante diferente. É este o insuspeito charme das bandas de Imada, um homem que domina a história do jazz sem ter sido testemunha dos seus desenvolvimentos em primeira mão.


Classificação: ****
Melhor Solista: Masaru Imada
Melhor Faixa do Álbum: Nostalgia

14/05/2018

TBM-01 Kosuke Mine Quintet - "Mine" (1970)


Título: "Mine"
Data: 1970
Artista / Grupo: Kosuke Mine Quintet
Nº do Catálogo: TBM-1, TBM-2501 (Reedição 1977), PAP-20031 (Reedição 1982)

Line-up:
Kosuke Mine - Saxofone Alto e Soprano
Hideo Ichikawa - Piano Eléctrico (Fender)
Takashi Mizuhashi - Contrabaixo
Hiroshi Murakami - Bateria
Takashi Imai - Trombone

Faixas:
01 - Morning Tide (13:15)
02 - Isotope (12:22)
03 - Dream Eyes (14:02)
04 - Work I (09:11)


A ilustre companhia dos ratinhos não podia ter tido melhor começo. Kosuke Mine, o novato saxofonista que se tinha estreado no mesmo ano deste "Mine" com First (editado pela Phillips), soprando notas com uma segurança vigorosa, brincando com as escalas, saltitando de nota em nota, formando cascatas sónicas até o seu instrumento atingir o cume da expressividade. A bateria de Hiroshi Murakami e o Fender de Hideo Ichikawa lá vão seguindo o trilho incendiário de Mine que, em Morning Tide, começa logo a rasgar a escala, como que provando que de aprendiz nada tem. O sax de Mine dá lugar ao trombone de Takashi Imai que, não surpreendendo tanto no seu primeiro solo, mantêm ainda assim o barco nas águas turvas da bateria incessante e dos dedos desdobrando-se nas teclas do piano. Esta é uma faixa de harmonias em parceria, uma excelente porta de entrada para todo o álbum. Depois do solo endiabrado de Ichikawa (já não se toca Fender assim!) e da competência das baquetas de Murakami, eis que a cacofonia de Mine e de Imai catapultam os nossos ouvidos para a mais intensa discussão entre os instrumentos de sopro. Quando, finalmente, o tema regressa, no meio do turbilhão, sabemos que é aí que voltamos ao início, mas a um início redescoberto pela acumulação e transformação do passado.

Isotope (composição original de Joe Henderson) coloca Mine e Imai em uníssono numa faixa que começa bastante mais moderada e cheerful. Imai descola-se do alto de Mine e sola. Confiante, com a bateria a segurá-lo e o piano a dialogar directamente com ele. Mas, quando já embalados pela ausência de Mine, eis que o maroto intérprete vai buscar o seu soprano pela primeira vez e inicia, sem pudor, uma cascata de notas mais esguias que, a despeito da sofisticação, não conseguem dissimular o swing infectante. É praticamente impossível não estalar os dedos, ouvindo este regresso vindo não se sabe bem de onde apenas para nos importunar (e importune-nos mais vezes, por favor, Sr. Mine). Talvez por não querer ficar atrás, Ichikawa principia, logo a seguir, um solo tão ou mais admirável, conversando com o contrabaixo incrível de Takashi Mizuhashi, finalmente audível no meio dos seus comparsas agora sedentos por oxigénio.

E, depois, vem a introspecção de Dream Eyes. Ouve-se o Fender meloso, confortavelmente dormente enquanto a bateria vai marcando um ritmo de doce inquietação. Depois do aquecimento mais frenético das duas faixas anteriores, estamos agora preparados para admirar os sons de silêncio do quinteto. Mine, respondendo ao meu pedido anterior, não tarda a perturbar a tranquilidade atmosférica dos seus colegas, ma non troppo. O som do seu soprano equivale a atirar pequenos seixos para dentro das águas brilhantes de um jardim japonês. Os arcos podem parecer excessivos no quebrado espelho liquido, mas há quem admire a harmonia do pequeno distúrbio, o brouha dos pássaros migrantes raspando no topo dos pinheiros. Dream Eyes é para esses intrépidos ouvintes que intuem paz no rebentar de uma onda. Ah, mas esquecia-me do trombone de Imai que também o acompanha no tema. Há qualquer coisa de hino nos sopros destes músicos. Ou talvez seja um lamento? Nos solos do piano e do saxofone (um a seguir ao outro), certamente. Um hino lamentoso, como uma lua melancólica numa noite chuvosa de Inverno. A sobrecarga de metáforas relacionadas com a Natureza atesta a beleza mística desta composição que é o ponto culminante de todo o álbum.

Como que levando uma chapada numa cara distraída, em Work I começamos lá em cima, rasgando um solo. Não é preciso tema aqui nem introduções para uma qualquer ponte de improvisação. Já lá estamos, em queda livre, fervendo as melodias do nunca ofegante saxofonista. Toda a banda trabalha para o alto (regressado) de Mine, pelo menos na primeira metade. Foi-se o aluado mistério do tema anterior e, no entanto, ambas as faixas parecem estar, de alguma forma, ligadas. Talvez porque Work I começa in media res, na contra-mão total do que lhe precedia. Mas, é precisamente esse contraste que unifica as pontas. Por falar em intensidade, Murakami tem ainda espaço para brincar com a sua bateria enquanto toda a banda pára para escutar. É um belo solo que só poderia ser fechado pelo retorno de Mine à sala de comandos, com notas mais velozes do que anteriormente. Custa a crer que o estúdio não tenha ido abaixo com tamanha perícia e inspiração. Mais três álbuns seriam lançados em 1970. Mas isso ficará para a próxima.


Classificação: ****
Melhor Solista: Kosuke Mine
Melhor Faixa do Álbum: Dream Eyes